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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Arma ilegal - em menos de 48 horas se compra uma

Comprei uma arma ilegal. O banco recusou o pagamento a um dos vendedores de armas. Motivo: excesso de depósitos.

Em menos de 48 horas, ÉPOCA adquiriu no mercado negro um revólver idêntico ao usado na chacina de Realengo. A arma foi entregue à polícia

Em menos de dois dias, o revólver Taurus calibre 38 que eu busquei pelo computador chegou às minhas mãos.
É uma arma parecida com a que Wellington de Oliveira usou, no dia 7 de abril, para efetuar a maioria dos disparos que mataram 12 crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro. A delegacia de homicídios do Rio de Janeiro prendeu o fornecedor de Wellington. Manoel de Freitas Louvise, de 57 anos, era segurança da última empresa em que o assassino trabalhou. Louvise confessou ter vendido o revólver calibre 38 e 77 balas por R$ 1.200. Os vendedores do revólver calibre 32, comprado para a chacina por R$ 260, eram vizinhos do assassino. Foram capturados dois dias após o crime. Fico surpreso em notar que Wellington, após virar noites na internet tramando o massacre, tenha comprado suas armas com colegas próximos, de quem precisou conquistar a confiança. O vendedor de minha arma não tem relação comigo, não me fez perguntas nem pediu documentos – como o porte de arma, que eu não tenho. Fico surpreso também com a tranquilidade da atuação do mercado negro de armas. Um dos sites que visitei existe pelo menos desde 2007, e, na rua, encontrei vendedores à luz do dia. Por que a polícia não os encontra? Nem a chacina de Realengo interrompeu o livre-comércio.

Em reação à tragédia no Rio, o presidente do Senado, José Sarney, propôs para outubro um novo plebiscito sobre a proibição da venda de armas de fogo. O assunto está em tramitação na casa. Segundo o projeto, a população deverá responder: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. A mesma pergunta foi feita no plebiscito de 2005, e 63,94% disseram que não. Apesar de liberado, o comércio de armas no país é severamente restrito. O Estatuto do Desarmamento de 2004 proíbe o porte de armas por civis, com exceção para diretores de presídios, secretários da Segurança e outras autoridades que correm risco na profissão. Para receber da Polícia Federal o porte de arma, essas pessoas precisam fazer teste psicológico, teste de tiro e ter certidão de bons antecedentes criminais.

Portar arma de fogo ilegalmente é crime inafiançável, passível de prisão por até quatro anos. “A lei brasileira é ótima”, afirma Alice Andres Ribeiro, coordenadora de controle de armas do Instituto Sou da Paz. “Não precisa mudar regras nem fazer novo plebiscito. Basta cumprir o que já temos.”

MÃO ARMADA
Revólver Taurus Special calibre 38 comprado no mercado negro em menos de 48 horas. A arma foi entregue à polícia do Rio

Não é o que acontece. A Polícia Federal afirma usar diariamente mecanismos de rastreamento automático em sites como Orkut, Google e Mercado Livre. Quando identifica a oferta ilegal de armas, pede aos provedores para retirar a página do ar e investiga os responsáveis. Muitas vezes, ainda segundo a PF, os anunciantes são golpistas: vendem armas inexistentes, sabendo que o comprador não terá a quem reclamar. Como prova esta reportagem, a fiscalização é ineficiente.

A procura pela arma começou na terça-feira dia 12. Fiz o que qualquer criança faz quando quer encontrar alguma coisa: digitei a palavra “arma” no Google. Descortinaram-se na tela do computador dezenas de sites com anúncios de revólveres, pistolas, rifles e até fuzis. A arma só não foi comprada em menos de 24 horas por precaução. Um vendedor no Orkut, que se identificou como gerente de uma boca de fumo num morro do Rio de Janeiro, ofereceu uma pistola por R$ 3 mil. Hesitei. Ele disse que não havia motivo para me preocupar e fez um convite inusitado: “Sobe aqui, é tranquilo. Vem e testa a peça. A gente dá um tiros. Mano, tu não pode comprar arma sem testar”, disse ele, já percebendo minha inexperiência no assunto.

IRREGULAR
O revólver comprado por ÉPOCA diante da tela do computador. A maioria das armas no Brasil está, a exemplo desta, em situação irregular
[e não será uma campanha de desarmamento ou um plebiscito que vão retirar tais armas de circulação - os bandidos e malucos não entregam suas armas espontaneamente, mesmo que em campanhas.]

O suposto traficante concordou em vender fora de sua favela, mas as condições impostas para a entrega assustaram: eu deveria ir sozinho a um largo no pé do morro. Ele passaria de moto, pegaria o dinheiro e me daria a arma. Perguntei: “Como eu vou saber se você não vai apontar a arma contra mim e levar o dinheiro?”. A resposta dele não satisfez: “Sou bandido, rapaz. Sou sujeito homem”. Um amigo com bom trânsito em favelas me aconselhou a desistir daquela negociação.

Os vendedores postam anúncios em fóruns que, para despistar, não têm relação com armamentos. Outro disfarce é abrir blogs em sites de hospedagem gratuita como Blogspot e Wordpress. Essas páginas exibem uma tabela de preços e o contato do vendedor, em geral um endereço de MSN. Feitos os primeiros contatos, eles fornecem um telefone. Alguns aceitam pagamento de metade do valor antes da entrega e a outra metade depois. Confiam que dificilmente o comprador dará calote, já que para receber a arma é preciso informar ao menos um endereço.

Os vendedores de armas mantêm-se no anonimato mesmo quando passam ao segundo estágio da negociação, o contato telefônico. Eles falam com celulares pré-pagos comprados em Estados distantes. Para ter um chip desse tipo, bastam R$ 10, digitar um CPF qualquer e um CEP. Feito isso, o vendedor consegue conversar com qualquer pessoa incógnito. Um dos negociantes falou comigo pelo menos cinco vezes, sem nenhuma preocupação, usando um celular com prefixo de Caldas Novas, Goiás.

O banco recusou o pagamento a um dos vendedores de armas. Motivo: excesso de depósitos

Na internet, um leigo como eu recebe dicas grátis pelo MSN ou pelo chat que existe dentro do Orkut. Nos primeiros minutos, os interlocutores são arredios. Um vendedor afirma que certa pistola pode passar despercebida por portas de bancos. Outro explica pacientemente, como um entusiasta, as vantagens de uma arma em relação à concorrente. Um terceiro, mais paternal, me pergunta por que eu quero comprar uma arma. Informam, por exemplo, diferenças entre revólver e pistola. O revólver é mais barato e fácil de usar, mas precisa ser recarregado a cada cinco ou sete disparos. Com uma pistola, de 20 tiros, capaz de disparar rajadas, a tragédia em Realengo teria sido muito pior. Segundo o Instituto Sou da Paz, revólveres e pistolas são as armas de fogo mais comuns do Brasil, presentes em mais de 85% das ocorrências policiais. Além de baratas, podem ser escondidas com facilidade. Ignacio Cano, membro do Laboratório de Análise da Violência, afirma que uma possível evolução do atual estatuto das armas seria a proibição da venda de armas curtas a civis. [o tal de 'cano' é mais um dos favoráveis a desarmar o cidadão de bem e deixar os bandidos bem armados: proibir as pessoas de bem de comprar 'armas curtas' vai impedir que os bandidos nos assaltem usando fuzie ou escopetas .12? vai impedir um malucos - tipo aquele que invadiu um cinema - de adquirir, e usar, metralhadoras?]

A venda na rede aparenta ser lucrativa: não consegui pagar a um desses vendedores por uma pistola porque a conta informada por ele na Caixa Econômica Federal não aceitou o pagamento. Motivo: excesso de depósitos no mesmo dia, como mostra o comprovante de uma casa lotérica. É provável que muitos desses sites e negociantes não cumpram o prometido. A quem o comprador poderá reclamar se a arma não for entregue? Ainda assim impressiona que, mesmo que eles sejam golpistas, consigam agir tão livremente na internet. Num fórum, um suposto comprador dá a dica do Armas Paraguai. A data da postagem: abril de 2008.

Hoje, o Armas Paraguai se chama Camping 44 e tem versão também em espanhol com sufixo .py, prefixo dos sites hospedados no Paraguai. A página oferece até a venda de fuzis por Sedex. Para provar que entregar armas pelo correio é possível, o site reproduz uma notícia do jornal O Globo com a denúncia de que a própria Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro recebeu 80 fuzis dessa forma. Eles omitem, porém, que a encomenda era oficial e que os Correios foram avisados.

Para passar pelos detectores dos Correios, o site diz que embala as armas em folhas de chumbo. A embalagem é só uma das artimanhas. Um vendedor de pistolas diz que elas vêm desmontadas, com nota fiscal de eletrodomésticos. “Vai tudo no meio de peças de geladeira, ninguém percebe”, ele conta, por telefone. São muitas as ofertas postadas no Orkut, em comunidades que reúnem desde amantes de tiro esportivo até partidários de facções criminosas. Existem ainda comunidades como “Eu ainda vou ter uma pistola cromada”.

Nos dois dias, negociei com vendedores na internet. Na rua, busquei seguranças de grandes centros comerciais de três cidades e mototaxistas que fazem ponto perto de favelas. A abordagem de um desconhecido é recebida com desconfiança por alguns e com naturalidade por outros. Eu certamente não sou o primeiro a buscar essas fontes para conseguir armamento. Num ponto de motos perto de uma boca de fumo numa favela de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, chamo um dos mototaxistas. Desconfiados, os outros cinco observam nossa conversa. Pergunto, sem rodeios, se ele conseguiria entrar na favela e trazer um revólver. Ele responde que “não se mete com essas coisas” e volta para o grupo.

De alguns seguranças eu ouço que desde o atentado de Realengo está todo mundo com medo de vender armas. A prisão dos três envolvidos na negociação das duas armas usadas pelo assassino dificulta os negócios. A todos, conto a mesma história: sou um comerciante que está cansado de ser assaltado e quer comprar uma arma para se defender. “Eu até teria, mas não te conheço. Você viu que lá descobriram rapidinho? Um vai contando para o outro”, diz um segurança, que acabou consultando um amigo pelo telefone para saber se ele tinha alguma disponível. “Pô, ele vendeu na semana passada.” Um outro pediu meu número para ligar nos dias seguintes. Um terceiro aconselhou deixar a poeira abaixar e voltar em duas ou três semanas. Apesar de todos os seguranças terem se identificado como policiais, nenhum deles me deu voz de prisão – o que seria o procedimento regulamentar numa situação como essa.

No fim, paguei R$ 1.500 pelo revólver. Sem tanta pressa, é possível gastar um terço desse valor. Na internet existem ofertas até de pistolas começando em R$ 1.600. Para preservar minha segurança, não vou revelar exatamente como a negociação foi concluída. É um revólver calibre 38 Special, fabricado pela brasileira Taurus, o que significa que em algum momento essa arma já foi vendida legalmente para alguém. A arma recebida está com os números raspados – outro indício de que já foi legal. Pela numeração, seria possível chegar ao menos ao primeiro comprador. Em algum momento, caiu na clandestinidade.

Um levantamento da ONG Viva Rio mostra que 83,1% das armas apreendidas no Rio de Janeiro têm as mesmas características da arma comprada: foram fabricadas aqui, compradas legalmente e, em seguida, caíram no mercado negro. Para isso, basta que o dono da arma seja roubado. A pesquisa do Viva Rio mostra que 52,4% das apreensões são de revólveres como o que eu consegui. Ante a facilidade de obter a arma, penso no que um dos vendedores me disse num chat: “Olha lá se você não vai sair matando por aí igual àquele maluco, hein”.

Na manhã da sexta-feira, procurei a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro para entregar o revólver. A rigor, qualquer cidadão pode doar sua arma à polícia para ela ser destruída – não é necessário esperar por campanhas de desarmamento. A Polícia Civil afirma que vai abrir inquérito para investigar o caso relatado por ÉPOCA.

Fonte: Revista ÉPOCA - Por: NELITO FERNANDES

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